A Reserva
Particular do Patrimônio Natural Fazenda Morrinhos está
localizada no nordeste da Bahia. Região do semi-árido,
distante aproximadamente 308 km de Salvador e a mais ou menos
30 km da cidade de Queimadas - BA. Geograficamente suas terras
estão nas áreas dos municípios de Queimadas
e Santa Luz. Anteriormente, Refúgio Particular de Animais
Nativos (Portaria IBDF nº 247-P de 04/06/84) depois reserva
através da Portaria IBAMA nº 644/90 de 03/05/1990.
Situada numa região composta de grandes e pequenas propriedades,
onde a exploração predominante é a pecuária
e para os minifúndios é feita a cultura de subsistência
(mandioca, milho e feijão), quando o tempo permite, e também
a extração da fibra do sisal que, por razões
de constantes estiagens está muito comprometida. Para a
população nativa é duro viver da terra. As
chuvas não são certas e tudo que se produz depende
única e exclusivamente do tempo. O índice pluviométrico
é de 600 mm/ano, quando acontece, porque há anos
em que não passa de 150 mm/ano. É duro viver no
semi-árido! A vida é feita de incertezas. Por falta
de ações governamentais, ou seja, uma política
de geração de trabalho, a migração
é intensa. São levas de famílias à
procura do sustento no sul-maravilha, o que no fundo não
passa de um grande engano; ou então o estado de Goiás
e o oeste da Bahia, onde se diz existir trabalho. Quem ainda teimar
ficar é para penar. No momento, a saída encontrada
para essa gente está sendo a extração de
carvão vegetal, provocando o desmatamento desmedido, como
também a péssimas condições de trabalho
(alto nível de insalubridade) provocadas essa atividade.
O tempo judia muito do caatingueiro. Preservar o ecossistema do
semi-árido dentro da realidade sócio-econômica
descrita é por demais trabalhoso. Por mais que se faça
para evitar a caça, a pesca e captura de aves e animais,
o nativo não resiste à necessidade da fome. Mas,
mesmo enfrentando todas as dificuldades, durante estes 11 anos
foi feito muito na Fazenda Morrinhos. Com a ajuda direta da Superintendência
do IBAMA na Bahia, paulatinamente foram reintroduzidas espécies
extintas lá, a exemplo da ema (Rhea americana), perdiz
(Rhynchotus rufescens), zabelê (Cypturellus noctivagus zabele),
cágado (Geochelane carbonaria), caititui (Tayassu tajucu),
jacus (Penelope superciliares), aracuã (Ortalis guttata),
etc.
A avifauna do semi-árido é muito rica. Podemos destacar
na região da reserva os psitacídeos: papagaio-verdadeiro
(Amazona aestiva) periquito-guerre-guerre (Aratinga cactorum)
e periquito-cuiubinha (Forpus xanthopterygius). São aves
interessantes pela sua expressão de alegria como também
pela predominância de plumagem verde que, nas épocas
das chuvas, se confunde com a explosão exuberante da vegetação
caatingueira.
O trabalho conservacionista destas espécies tornou-se um
imperativo pela razão de que, ano a ano, o número
de exemplares na natureza vem sempre diminuindo, em que pese todo
um trabalho de educação e conscientização
da população. Há anos vem sendo feito um
rastreamento com acompanhamento dos ninhos e uma sistemática
fiscalização para que nem os filhotes e nem os pais
fossem capturados. Todas as tentativas foram frustadas. As crias
foram capturadas e, em alguns casos, até os pais, vez que
foram encontrados ninhos com ovos abandonados já gerados.
Os ninhos só são abandonados no caso de uma forte
agressão.
Após tentativas de preservar as espécies nos seus
próprios ninhos, o que não resultou em sucesso,
foi adotado um novo procedimento, o que será relatado com
base em anos de observação "in loco" e
pesquisas. Os processos de nidificação do papagaio-verdadeiro
(Amazona aestiva) e do periquito-guerre-guere (Aratinga cactorum)
dão-se entre os meses de dezembro e janeiro, havendo, contudo,
particularidades em caso do caso. Já o periquito-cuiubinha
(Forpus xanthopterigius) entre os meses de março e abril.
Os periquitos-guerre-guerre escolhem, como local de postura, cupinzeiros
abandonados e constróem seus ninhos num processo que consiste
na escavação de baixo para cima até alcançar
a parte superior, onde alargam até obter espaço
adequado para postura e incubação. Este sentido
de escavação tem por finalidade proteger sua prole
de eventuais chuvas, como também é uma forma de
proteção contra predadores. Como ninho pronto, soltam
penas, deduzindo-se com isto que a parte da região inferior
da ave fique mais livre para expelir umidade tão importante
na alimentação dos filhotes ainda dentro do ovo,
como também para o nascimento, vez que é necessário
que a casca do ovo esteja dentro de uma consistência que
o filhote possa romper. As A.cactorum põem em média
5 ovos e a eclosão alcança até 100%. A incubação
dura mais ou menos 23 dias e os filhotes voam entre 30 a 45 dias.
Nascem com olhos fechados e com uma penugem; com o tempo nascem
as verdadeiras penas. Um dado curioso no processo de reprodução
foi observado quando chega o tempo dos filhotes voarem. Como o
local da postura fica na parte superior do cupinzeiro, os filhotes
para alcançarem o mundo, não saem pelo corredor
que vai até a parte inferior, e sim esperam os pais fazerem
uma abertura na parte superior. Dos psitacídeos citados,
é o único exemplar que de fato constrói seu
ninho.
Os papagaios-verdadeiros (Amazona aestivas) escolhem, como local
de postura, ocos em grandes árvores como aroeiras, pau-d'arco
(Tecoma heptaphylla), baraúnas (Schinopsis brasiliensis),
barrigudas (Cavanillesia arbórea) etc. Começam a
freqüentar o ninho, fazendo inicialmente uma limpeza. O ninho
fica a uma profundidade de acordo com o tamanho do oco, chegando
a ser observado ninho com 2 metros. Como as A.cactorum, antes
da postura soltam penas, para processar a incubação.
Põem em média 3 ovos e escolhem todo o ano sempre
o mesmo local para a postura, sendo a incubação
feita tanto pelo macho quanto pela fêmea e a eclosão
dando-se com 24 dias, voando os filhotes com mais ou menos 45
dias. Foi observado casos de uma segunda postura, quando a primeira
sofria algum tipo de agressão. Não chegam a escolher
árvores só dentro da caatinga, mas também
nas pastagens abertas. Usam, para seus ninhos, tanto árvores
vivas como também ocos de árvores mortas. Foi observado
sempre o nascimento de 2 filhotes, em que pese terem sidos encontrados
ninhos com 3 ovos. Nascem com olhos fechados e penugem. São
carentes de assistência dos pais até voarem. Foi
observado que, mesmo após estarem voando, ainda acompanham
os pais por algum tempo. Segundo os nativos, os filhotes sempre
voam na quaresma. Trata-se de uma crendice, vez que há
casos em que a postura se dá em abril e os filhotes voam
no mês de junho.
A exemplo
do papagaio-verdadeiro o periquito-cuiubinha também não
faz ninho Usa ocos abandonados e faz sua postura todo ano no mesmo
lugar. Tem o mesmo costume do A. aestive para a postura. Limpam
o ninho e soltam penas. A postura consta de uma média de
5 ovos e a eclosão se dá com 21 dias, nascendo com
os olhos fechados e penugem. Voam com mais ou menos 30 dias. A
incubação é feita tanto pelo macho como pela
fêmea.
Estas aves são monógamas, acasaladas, só
o tempo as separa. Alimentam-se dos frutos do umbuzeiro (Spondias
tuberosa), da umburana (Bursera leptophleos), do ouricurizeiro
(Syagrus coronata), do mandacaru-de-boi (Cereus jamacaru), flores
de pendões da flecha do sisal (Agave sisalana) e do cipó-de-leite
(Oxypetalium spp).
O procedimento para a preservação destas espécies
constitui neste trabalho de acompanhamento e, como não
foi possível conservá-los nos ninhos até
voarem, adoto-se o método de retirar os filhotes dos seus
ninhos para serem criados em casa até alcançarem
a liberdade. Isto de fato foi um sucesso. São aves fáceis
de serem criadas. Alimentam-se com papa à base de milho,
ainda morna para ter a mesma temperatura com que são alimentados
pelos verdadeiros pais.São acondicionados em cabaças
com folhagem para suprir a carência de calor, necessário
quando ainda jovens. A alimentação é dada
2 vezes ao dia (não se observando necessidade maior). Neste
ano de 95, foram conseguidos 10 exemplares do A. aestiva e 3 A.
cactorum. Estas aves sofrem um processo de marcação
que consiste num fecho tipo presilha numerada na asa direita e
anilhas com numeração/ano, a marca J1 e telefone
da cidade de Feira de Santana-BA. No momento, algumas destas aves
já alcançaram a liberdade, fazendo com que o semi-árido
fique mais alegre e cheio de vida.
A Fauna e a flora do semi-árido de uma riqueza sem fim.
A caatinga nordestina contém uma pureza e beleza que só
quem a vive, sente. É necessário toda a sociedade
ter este direito.
Para o sucesso deste trabalho é de se agradecer à
Divisão Técnica/Setor de Vida Silvestre da Superintendência
do IBAMA na Bahia. Agradecimentos a Evaldo Oliveira da Silva e
Eliane Lopes da Silva (Fazenda Morrinhos), Osvaldo Silva de Almeida,
Divandira da Silva Araújo e Barnabé Alves de Araújo
(Fazenda Soledade), pessoas que muito fizeram pelas suas consciências,
zelo e vontade. Por fim, agradecimento à minha mulher Verbena
Pereira pela sua paciência e verdadeira compreensão.
A meus filhos, Bartira, Juliana e José Emiliano.
Jornal Folha de Londrina - Caderno Atualidades Ornitológicas
Paraná, Julho e Agosto de 1995, nº 66, pag. 12
Texto: José Juracy Pereira