Histórico:
O tráfico de animais silvestres é a terceira maior
atividade ilícita do mundo, perdendo apenas para o tráfico
de drogas e de armas. O Brasil ocupa um lugar importante neste
contexto devido, entre outros motivos, à enorme biodiversidade
de nosso país, aos graves problemas sociais existentes
e a uma legislação extremamente branda relacionada
a este assunto. Assim, a cada ano, são retirados de nossos
biomas 38 milhões de animais, sendo que de cada 10 animais
capturados, apenas 1 chega vivo ao consumidor final.
As conseqüências deste quadro, para a natureza, são
preocupantes. A sobrexploração é a segunda
maior causa de extinção das espécies, ficando
atrás somente da diminuição de habitats naturais.
A depressão endogâmica, a perda da flexibilidade
evolucionária, a depressão exogâmica, entre
outras causas, acabam levando as espécies ao chamado "vórtice
de extinção", em uma situação
difícil de se reverter. Esta situação complica-se
ainda mais em espécies de ocorrência limitada ou
endêmica, espécies que necessitam de grandes áreas,
aquelas que não são dispersoras eficazes e as que
requerem nichos especiais
Animais da
fauna silvestre apreendidos pelas autoridades competentes são,
usualmente, encaminhados a Centros de Triagem, locais responsáveis
pela recepção, triagem, tratamento, reabilitação
e adequada destinação destes animais.
O estado
da Bahia é um grande fornecedor de animais silvestres,
seja para o consumo local, como "xerimbabos" (devido
a arraigados hábitos ditos "culturais") como
para o tráfico nacional e internacional. Este estado possui,
atualmente, apenas dois Centros de Triagem de Animais Silvestres
em funcionamento, sendo um localizado no município de Vitória
da Conquista, atendendo às regiões sul e sudoeste
e o CETAS Chico Mendes, localizado em Salvador, e que recebe animais
de toda a região norte e nordeste da Bahia desde o final
do ano de 2003.
Em um painel
apresentado no VII Congresso de Animais Silvestres e Exóticos,
realizado em setembro de 2006 no município de Ilhéus/BA,
foram avaliados os dados obtidos em dois anos de atividades do
CETAS Chico Mendes - IBAMA/BA dos Animais Silvestres oriundos
do comércio ilegal na Bahia (apreensões e entregas
espontâneas). Não foram levados em conta, neste trabalho,
animais provenientes de resgate em áreas urbanas.
Entre os
2800 animais de origem ilegal, as aves foram mais freqüentes
(80,4%), principalmente pássaros canoros adultos e machos
e filhotes de papagaios. Entre os répteis (15,4%), destacaram-se
filhotes de jabutis-piranga, cuja função, acredita-se
que seja servir como presente para crianças, por conta
do seu deslocamento lento e tolerância à manipulação.
Entre mamíferos (4,2%), foram mais freqüentes os primatas
e felinos, para fins de criação como pets, e os
cinegéticos, como a cutia e o tatu, para consumo alimentar.
Segundo relatório
anual referente ao ano de 2006, ainda no prelo, foram recebidos
naquele ano 2661 animais, provenientes de apreensões, resgates
e entregas espontâneas, sendo destes 1661 aves, 811 répteis
e 189 mamíferos, ilustrando a atual realidade do CETAS
Chico Mendes.
A destinação
destes animais deve ser, segundo o Decreto nº 3179/99 , artigo
2º, § 6:
II - os animais
apreendidos terão a seguinte destinação:
a) libertados em seu habitat natural, após verificação
da sua adaptação às condições
de vida silvestre:
b) entregues a jardins zoológicos, fundações
ambientalistas ou entidades assemelhadas, desde que fiquem sob
a responsabilidade de técnicos habilitados; ou
c) na impossibilidade de atendimento imediato das condições
previstas nas alíneas anteriores, órgão ambiental
autuante poderá confiar os animais a fiel depositário
na forma dos arts. 1.265 a 1.282 da Lei nº 3.071, de 1º
de janeiro de 1916, até implementação dos
termos antes mencionados.
Considera-se, portanto, o retorno à natureza, apesar do
processo às vezes complexo, com os devidos cuidados, possível
e desejável. Iniciativas neste aspecto, apesar de ainda
incipientes, estão crescendo em todo o Brasil, com resultados
animadores. A Superintendência do IBAMA/SP realizou, no
ano de 2006, o I Encontro Nacional de Áreas de Soltura
e Monitoramento, mostrando os resultados preliminares de três
anos de trabalho, procurando encontrar um meio termo aceitável
entre as exigentes recomendações da IUCN e a realidade
enfrentada pelas Unidades do IBAMA. Este trabalho, fruto de parcerias
entre o IBAMA, Universidades e Empresários, culminou no
estabelecimento de 09 áreas de Soltura e Monitoramento,
sendo que centenas de animais já foram devolvidos criteriosamente
à natureza graças a esta iniciativa.
O IBAMA-
Superintendência Estadual da Bahia- pretende, desta forma,
elaborar projetos de soltura criteriosa, sendo que, para isso,
torna-se essencial primeiramente estabelecer contatos com proprietários
interessados de cadastrar suas propriedades como ASM- Áreas
de Soltura e Monitoramento.
Justificativa:
A destinação
preferencial para animais recebidos em Centros de Triagem, conforme
verificado no item anterior, é a devolução
ao seu habitat natural, popularmente conhecida como "soltura".
A soltura sem critérios, ainda amplamente realizada por
vários órgãos ambientais e Polícia
Florestal, traz sérios riscos ao ecossistema, similares
àqueles trazidos pela introdução de espécies
exóticas.
Entretanto,
dados da RENCTAS mostram que, ainda hoje, 78% dos animais apreendidos
no Brasil são soltos sem os maiores cuidados, na maioria
das vezes. Centros de Triagem estão cada vez mais lotados
de animais provenientes de apreensões, resgates e entregas
espontâneas, recorrendo, muitas vezes, a solturas sem posterior
monitoramento, seja por falta de verbas ou de pessoal.
Como objetivos
das solturas e cadastramento de áreas de soltura, podemos
listar:
1) Recolocação de espécimes e estabelecimento
de populações na natureza;
2) Retorno de processos ecológicos(polinização,
dispersão, herbivoria, polinização, etc);
3) Geração de experiências, informações
e conhecimento;
4) Estabelecimento de parcerias, integração de órgãos
governamentais e privados;
5) Incentivo à pesquisa com fauna e flora (levantamentos,
monitoramentos, enriquecimento florístico, etc);
6) Incentivo à sensibilização da população
e à proteção de áreas verdes.
A criação
de áreas de soltura é, portanto, uma poderosa ferramenta
para a realização de solturas criteriosas, utilizando-se
a técnica de soft-release, cuidados pré e pós
soltura e posterior monitoramento. A contribuição
desta ação não se restringe somente à
fauna silvestre, mas abrange a conservação em um
aspecto mais global, seja pelo fomento a pesquisas, proteção
de áreas verdes ou educação ambiental.
Proposição:
Atualmente,
há no CETAS Salvador cerca de 400 passeriformes provenientes
de apreensões e que estão ainda em estado asselvajado.
Os animais provenientes das últimas apreensões já
foram marcados com anilhas abertas com lacre, fornecidas pela
COEFA/IBAMA/DF, conforme relação em anexo, e estão
em período de quarentena. A grande maioria destes animais
é proveniente do bioma Caatinga, na parte norte do estado,
segundo o professor Caio Graco, ornitólogo da UEFS (Universidade
Federal de Feira de Santana).
Assim sendo,
a devolução destes animais deverá ocorrer
em uma área do sertão, preferencialmente na região
norte do Estado da Bahia. Dentre os possíveis locais para
envio destas aves, há duas opções mais imediatas.
A primeira opção seria o município de Queimadas,
onde existe a Fazenda do Sr. Juracy, que já se mostrou
interessado e disposto em ajudar ações de soltura
em sua área. É uma área grande, cercada por
terrenos pertencentes à própria família do
interessado, onde a entrada de pessoas estranhas é vetada.
Já foi realizado um levantamento da fauna da área
pela equipe do CETAS/NUFAU e a ocorrência das espécies
que se pretende soltar foi ainda confirmada pelo professor Caio
Graco.
Além
disso, funcionários da Fazenda, além de serem sensibilizados
a não coletar animais silvestres, ainda ajudam colocando
alimentação e fazendo monitoramento, conforme foi
verificado em uma soltura de pássaros-pretos, realizada
há cerca de 01 ano, em que tais funcionários relataram
inúmeros casos de reprodução e confecção
de ninhos.
Uma segunda
opção seria a área dos índios Pankararés,
próxima a Paulo Afonso, onde existe um projeto em parceria
com a Universidade e também um Escritório Regional
do IBAMA, que poderia oferecer apoio.
A soltura
seria realizada em esquema soft release, após aclimatação
dos animais em gaiolões na área escolhida, com monitoramento
intensivo na primeira semana. Após este período,
os monitoramentos deverão ocorrer durante seis dias após
um mês, três meses, seis meses, nove meses e um ano.
A equipe deverá contar com, pelo menos, um servidor do
IBAMA, funcionários da Fazenda e voluntários da
Universidade, com supervisão do professor Caio Graco.
Após
esta ação mais emergencial, os resultados deverão
ser compilados e apresentados em um grande seminário aberto
ao público, para o qual os grandes empresários e
donos de terras do estado da Bahia seriam chamados e incentivados
a cadastrar suas próprias áreas. Não é
necessário esperar todo o período de monitoramento
após esta primeira soltura; as ações de soltura,
monitoramento e a iniciativa da realização do Seminário
podem ocorrer concomitantemente. Desta forma, como fruto deste
seminário, já sairia um cadastro de novas Áreas
de Soltura e Monitoramento e outras possíveis parcerias
em tais ações, para todo o estado da Bahia.
Ações:
· Contato
com professor Caio Graco, da UESC (já realizado);
· Contato com Sr. Juracy e Índios Pankararés;
· Contato com EsReg Paulo Afonso;
· Contato com financiadores, a fim de providenciar: combustível,
passagens (para os estudantes), alimentação, redes
de neblina, binóculos e material para a confecção
de gaiolões. Algumas anilhas já foram adquiridas
pela COEFA e outras já foram compradas pela Fazenda Caraíbas,
restando apenas o pedido de doação das mesmas;
· Ida ao local para construção dos gaiolões,
novo levantamento da avifauna da área e ações
preliminares de Educação Ambiental com a comunidade
(01 semana em campo);
· Agendamento da soltura;
· Soltura com monitoramento de seis dias. Pode ser chamada
imprensa local para registrar a ação;
· Monitoramentos posteriores (01 mês, 03 meses, 06
meses, 09 meses e 01 ano);
· Relatório final;
· Convite ao grande público, empresários,
fazendeiros, universidades e mídia para um Seminário;
· Apresentação dos resultados preliminares
em um Seminário aberto ao público;
· Cadastramento de novas Áreas de Soltura em todo
o Estado.
Clique aqui para acessar
o Relatório do CENTRO DE TRIAGEM DE ANIMAIS SILVESTRES
CHICO MENDES, dos Anilhamentos das aves apreendidas pela COPPA,
IBAMA e POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL.